Sobre o Cerrado...
CERRADO
Atualmente o mundo volta sua atenção para a região tropical. Não é à toa, calcula-se que 2\3 de todas as espécies ocorram nos trópicos. O Brasil contém em seu território 15% da biodiversidade mundial, que estão distribuídos entre os grandes biomas brasileiros: Amazônia,Floresta Atlântica, Caatinga, Campos Sulinos, Pantanal e Cerrado (Ramos, 1997).
O Cerrado, em sua integridade, ocupa cerca de 1\4 do território nacional aproximadamente 203 milhões de hectares e aparece com toda plenitude na região Centro-Oeste do país. Por sua vasta extensão territorial, faz fronteira com outros biomas ou aparece em forma de pequenas manchas como acontece na Floresta Amazônica.
É considerado o segundo maior bioma da América do Sul e sua extensão abrange vários estados, como: São Paulo, Paraná, Rondônia, Piauí, Maranhão, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Distrito Federal e apresenta-se em forma de manchas no Amapá, Roraima e Amazonas.
O Cerrado, no Planalto Central, abriga nascentes das três grandes bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica, do Paraná e São Franciscana o que resulta num elevado potencial aquífero favorecendo a dispersão de sua biodiversidade e permitindoo intercâmbio da fauna e flora com outros biomas,fator que propicia o aumento da variabilidade genética.
A flora do Cerrado apresenta importante valor econômico, pois várias espécies são utilizadas pelas populações que habitam essa região para usos diversos tais como as espécies alimentícias, medicinais, forrageiras, corticeiras, taníferas, melíferas, e ornamentais.
A fauna por sua vez, apresenta-se de forma bastante diversificada, seus domínios se estendem nas regiões fronteiriças da Floresta Amazônica, Floresta Atlântica e Caatinga possibilitando a partilha de seus elementos com esses biomas.
É também reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade abrigando mais de 13 mil espécies de plantas nativas assim distribuídas: angiospermas 12.448, briófitas 481, samambaias e licófitas 276. A fauna é composta de 200 espécies de mamíferos, 180 de répteis, 830 espécies de aves, 1.200 espécies de peixes, 150 espécies de anfíbios e 90.000 espécies de insetos. Estima-se que 40% das espécies que ocorrem no Cerrado sejam endêmicas, ou seja, ocorrem somente nessa região.
Três fatores são importantes para o estabelecimento do Cerrado, o clima estacional, com uma estação seca e outra chuvosa bemdefinida, o baixo nível de nutrientes no solo e a ocorrência de queimadas naturaisque resulta em um tipo de vegetação que contém vários gradientes de cerrado, campos e veredas.
O clima dessa regiãoé caracterizado por duas estações bem definidas que pode variar de cinco a seis meses com precipitações e cinco a seis meses sem precipitações. A estação chuvosa vai de outubro a marçoe a seca se estende de abril a setembro, aproximadamente, o período mais quente geralmente é entre agosto e setembro. O índice pluviométrico varia entre 750mm a 2.000mm/ano.
O Cerrado vem evoluindo com a presença natural do fogo assim como acontece em outras regiões savânicas.Esses eventos ocorrem no fim da estação seca provocados principalmente por queda de raios que, geralmente, anunciam uma forte chuva. O fogo quando ocorre de forma natural surge em locais onde a fauna tem hábitos terrícolas, fossoriais,ou seja, habitam o interior da terra e se abrigam do perigo em tocas onde o fogo não penetra. Outros podem correr, fugir rapidamente buscando abrigo e refúgio em locais onde não há fogo. As plantas por sua vez, estão adaptadas à presença do fogo: boa parte apresenta xilopódio uma reserva de nutrientes enterrada a poucos centímetros no solo garantindo assim sua sobrevivência. Outras espécies possuem a casca bastante grossa que servem de isolante, protegendo-as do fogo.
O fogo antrópico, causado pelo homem anualmente com a intenção de limpar, preparar o terreno para agricultura e/ou atividade pastoril, geralmentesai do controle e avança sobre o Cerrado causando enormes danos a biodiversidade local. A lei 9.605/98 em seu artigo 41 prevê penalidade a quem atear fogo indiscriminadamente e sem autorização prévia dos órgãos ambientais no bioma.O fogo causado pelo homem é extremamente nocivo àflora e fauna,e na maioria das vezesinvade áreas onde naturalmente não ocorreria como matas de galeria e ciliares, local de refúgio da fauna. A maior parte das espécies de plantas que ocorrem nessas matas não possuem cascas espessas que as mantenham protegidas da ação nociva do fogo provocando a mortalidade de vários indivíduos e oportunizando a ocupação da área queimada por plantas invasoras que se aproveitam das clareiras recém-formadasdiminuindo assim a diversidade das espécies nativas.
O biomaCerrado é constituído por um mosaicovegetacional diferenciado em fitofisionomias, cada uma com sua peculiaridade, composição florística e fauna associada. As fitofisionomias estão distribuídas em três grandes formações: campestres, savânicas e florestais:
As formações campestres não apresentam árvores, quando isso ocorre, são muito esparsas. Compreendem o campo limpo e campo sujo, campo de murunduns e campo rupestre. As formações savânicas apresentam cobertura arbórea entre 5 e 70% e compreendemo cerrado sentido restrito e suas variações: cerrado denso, cerrado ralo, cerrado rupestre, palmeirais e as veredas. E as formações florestais que apresentam cobertura arbórea entre 50 e 95% compreendem as matas de galeria, matas ciliares, matas secas, e o cerradão (Silva Junior In Walter 2012).
FORMAÇÕES CAMPESTRES
CAMPO LIMPO- apresenta essencialmente plantas herbáceas com rarosarbustos e sem a presença de árvores. Ocorre densa cobertura de gramíneas e herbáceas, apresenta variações fisionômicas decorrentes da umidade do solo e topografia. O campo limpo seco está presente quando o lençol freático é profundo, já no campo limpo úmido o lençol freático é alto, e, com aparecimento de murunduns, denominados campos limpo com murunduns (Ribeiro & Walter, 1998).
CAMPO SUJO - E uma formação campestre onde ocorre principalmente o estrato arbustivo-herbáceo composto por ervas e arbustos, quando há ocorrência de arvoretas estas são bastante esparsas. De acordo com a profundidade do lençol freático pode-se encontrar três subtipos fisionômicos: campo sujo seco quando o lençol freático é profundo;campo sujo úmido quando o lençol freático é alto e;campo sujocom murunduns quando se encontra na área microrelevos mais elevados (murunduns) (Ribeiro & Walter, 1998).
FLORMAÇÕES SAVANICAS
CERRADO SENTIDO RESTRITO- Essa fisionomia é caracterizada pela presença de árvores baixas sem formação de dossel, são inclinadas, tortuosas, com ramificações irregulares, retorcidas e folhagem dura (coriáceas) e pilosa. O sol atinge o solo oportunizando o desenvolvimento de uma exuberante comunidade herbácea com alguns arbustos dispersos entre si, apresenta-se nas variações denso, típico, ralo e rupestre(Ribeiro & Walter, 1998).
CERRADO DENSO- Apresenta uma formação mais densa e alta com predominância da vegetação arbórea cuja cobertura varia de 50 a 70% e a altura média varia de 5 a 8 metros (Ribeiro e Walter, 1998). Nessa fisionomia, as copas das árvores aparecem sobrepostas umas sobre as outras formando um grau de cobertura do solo bem maior que em outras fisionomias, esse fator é importante, pois ajuda na ciclagem da matéria orgânica e reinserção de nutrientes no solo.
CERRADO TÍPICO- Essa vegetação é considerada intermediária entre o cerrado denso e o cerrado ralo com predomínio do estrato arbóreo-arbustivo cuja cobertura varia de 20 a 50 % e altura média de 3 a 6 metros (Ribeiro e Walter, 1998). É a mais comum das fisionomias do Cerrado.
CERRADO RALO- Apresenta o estrato arbustivo-herbáceo mais destacado em relação aos outros subtipos já que sua cobertura arbórea varia de 5 a 20% e altura média de 2 a 3 metros (Ribeiro e Walter, 1998).
CERRADO RUPESTE- Ocorre em ambientes rochosos e apresenta-se como uma vegetação arbóreo-arbustiva geralmente em mosaicos. Arbustos e ervas também são destacadas e as espécies arbóreas aparecem entre fendas das rochas (Ribeiro e Walter, 1998).
VEREDA- estas ocorrem em solos encharcados apresenta uma espécie típica que é o Buriti,(Mauritiafelxuosa) que pode aparecer em grupos descontínuos. O graus de cobertura arbórea variando entre 5 e 10% permeada por um comunidade arbustivo-herbácea e é frequentemente circundada por campo úmido (Silva Júnior inWalter, 2012).
PALMEIRAL- Essa fisionomia se apresenta com um grau de cobertura que varia entre 30 e 70%, ocorre espécie única de palmeira arbórea. Nos solos bem drenados aparecem: Babaçual (Ataleaspeciosa), Guerobal (Syagrusoleracea) e Macaubal (Acrocomiaaculeata) e nos solos menos drenados o Buritizal (Mauritia flexuosa) (Silva Júnior in Walter, 2012).
FORMAÇÕES FLORESTAIS
MATA DE GALERIA- as matas de galerias são formações do bioma Cerrado associadas aos pequenos cursos d’água que ocorrem sobre solos úmidos bem drenados ou encharcados formando corredores fechados ou galerias sobre os cursos d’água. As árvores atingem altura entre 20 e 30 metros abrangendo uma cobertura média de 70 a 95% (Ribeiro & Walter, 1998).Esse tipo de vegetação é importante para a movimentação da fauna que através delas, interagem com a fauna de outros biomas.
MATA CILIAR- asmatas ciliares ocorrem margeando os cursos d’água de maiores proporções no bioma Cerrado, boa parte dos indivíduos que compõem essa comunidade vegetal são decíduos ou semidecíduos com 50% (seca) a 90% (chuvas) de grau de cobertura (Silva Júnior In Walter 2012).
MATA SECA- chamadas também de matamesofítica, as matas secas são formações florestais que não apresentam associação com cursos d’água e ocorrem em solos mais ricos em nutrientes associados ou não e a afloramentos de rochas calcáreas. Dependendo das condições químicas e físicas do solo são caracterizadas pela queda de folhas na estação seca. São subdividas em: sempre-verde (que não perde as folhas),semidecídua (que perde parcialmente as folhas), e decídua (que perdem totalmente as folhas), (Ribeiro & Walter, 1998).
CERRADÃO- apresenta um tipo de formação florestal que tem dossel predominante contínuo e cobertura arbórea que varia de 50 a 90%. A altura média das árvores é de 12 a 15 metros proporcionando a ocorrência de um sobosque esparso com arbusto, ervas e poucas gramíneas, resultado de pouca incidência de luz em seu interior. O que define seus dois subtipos, distrófico e mesotrófico é a fertilidade do solo (Ribeiro & Walter,1998; Silva Júnior & Walter, 212).
O Cerrado é considerado a última fronteira agrícola do país e vem sendo bastante ameaçado pela intervenção humana principalmente pelasmonoculturas de soja, milho, cana de açúcar, além do plantio de espécies exóticas para produção de celulose,criação extensiva de gado, desmatamentos e queimadas e exploração de madeira que devastam grandes áreas desse bioma. Estima-se que cerca de 60% ou mais de sua área original foram perdidas.Outra preocupação é a expansão urbana que desde a década de 60 com a transposição da capital federal para o Planalto Central aumentou consideravelmente. Desta forma, o bioma vem encolhendo com uma rapidez acelerada provocando uma diminuição drástica na biodiversidade.
Infelizmente existem poucas áreas de proteção integral no Cerrado, as Unidades de Conservação, dentre elas podemos destacar a Chapada dos Veadeiros, Parque Nacional das Emas, Parque Nacional da Serra da Canastra, Parque Nacional da Serra do Cipó, Parque Nacional de Brasília, Reserva Ecológica do IBGE, Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília entre outros.Esses espaços oferecem um refúgio sagrado à fauna e a flora e também funcionam como importantes centros de pesquisa das espécies nativas desse bioma.
A acelerada degradação do Cerrado coloca em risco seu conhecimento, pois a devastação se sobrepõe eliminando espécies que ainda não foram estudadas ou até mesmo descritas por isso é imperial que a sociedade junto aos governantes, procurem criar politicas públicas para garantir a preservação do que ainda resta do bioma.
Augusto César Alencar Soares,
Geógrafo-Botânico, Chefe do Núcleo de Taxonomia do Jardim Botânico de Brasília
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